segunda-feira, maio 22, 2006

Que disparate... perdão a todos, não sei o que me afligiu

Nocturno a duas vozes

—Que posso eu fazer
senão beber-te os olhos
enquanto a noite
não cessa de crescer?

—Repara como sou jovem,
como nada em mim
encontrou o seu cume,
como nenhuma ave
poisou ainda nos meus ramos,
e amo-te, bosque, mar, constelação.

—Não tenhas medo:
nenhum rumor,
mesmo o do teu coração,
anunciará a morte;
a morte
vem sempre de outra maneira,
alheia
aos longos, brancos
corredores da madrugada.

—Não é de medo
que tremem os meus lábios,
tremo
por um fruto de lume
e solidão
que é todo
o oiro dos teus olhos,
toda a luz
que meus dedos
têm para colher na noite.

—Vê como brilha
a estrela da manhã,
como a terra
é só um cheiro de eucaliptos,
e um rumor de água
vem no vento.

—Tu és a água,
a terra,
o vento,
a estrela da manhã és tu ainda.

—Cala-te,
as palavras doem.

Como dói um barco,
como dói um pássaro
ferido no limiar do dia.

Amo-te. Amo-te
para que subas comigo
à mais alta torre,
para que tudo em ti
seja verão, dunas e mar.


(Eugénio de Andrade)

3 Comments:

Blogger Martina Gamba Tanga Cardamomos said...

uau odin!
Sim senhora, não te tinha por esta conta.
Bravo!
Já não te considero um bguto insensível.

4:39 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Martina seja muito bem vinda a este espaço!Faz muito bem em nao considerar o Odin de bguto, porque ele de bguto nao tem nada...

2:54 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

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»

6:53 a.m.  

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