segunda-feira, abril 09, 2007

A culpa é da Nicea - acerca da Páscoa

As festividades dedicadas à fertilidade e à renovação, que vêm de tempos imemoriais, por altura do equinócio da Primavera, acabaram por ser incorporados no judaísmo, para celebrar a fuga do povo de Israel do Egipto, e, posteriormente, no cristianismo, para assinalar a ressurreição de Jesus Cristo.
Com o imperador romano Constantino, a festividade - a mais importante do cristianismo - acabou por marcar, além da vida dos crentes, aspectos da rotina secular, que chegaram até hoje.
«A Páscoa foi sempre celebrada desde o início do cristianismo e até ao édito de Milão, no ano 313, de forma muito sóbria nas comunidades cristãs. Depois da liberdade religiosa, concedida por Constantino, a religiosidade cristã passou a assumir o lugar que antes era ocupado pela religião romana», explicou ao Portugal Diário o professor David Sampaio Barbosa, especialista em História da Igreja Antiga da Universidade Católica Portuguesa.
O académico explicou ainda que esta festividade acabou influenciar o ritmo de vida do império, quando o imperador Constantino decidiu, «a partir de 320, 321, declarar o primeiro dia da semana, a que chamamos domingo, como dia de descanso» - uma alteração que chegou até aos nossos dias.
«O calendário romano começou a girar, a partir de Constantino, em torno do calendário cristão», acrescentou David Barbosa, acrescentando: «Impôs-se o ritmo hebdomadário, a semana de oito dias, que tem origens judaicas».
Niceia e uma data para a Páscoa
A fixação do dia da celebração da Páscoa nem sempre correspondeu a critérios idênticos, pelo menos até ao «Concílio de Niceia, em 325», referiu o teólogo, ao PortugalDiário. «Até essa data, as comunidades cristãs não celebravam a Páscoa no mesmo dia», frisou.
«Houve um grande debate até que em Niceia se chegou à conclusão que a Páscoa devia ser celebrada sempre depois do equinócio da primavera, no primeiro domingo a seguir à Lua cheia», explicou David Sampaio Barbosa. «É por esta razão que ela é celebrada sempre entre 23 de Março e 25 de Abril».
Se hoje é relativamente fácil determinar com exactidão as fases da Lua e os equinócios, há 1700 anos esta era uma tarefa mais complicada. Desta forma, para evitar confusões, «a Igreja de Alexandria ficou com a tarefa de comunicar a todas as comunidades cristãs quando é que a Páscoa seria celebrada no ano seguinte», apontou o académico.
Como Portugal perdeu dez dias de história
Contudo, entre as comunidades latinas e orientais, a data sofreu uma dessincronização, quando em 1582 o Calendário Juliano sofreu um acerto, por bula do Papa Gregório XIII, que decidiu adiantá-lo dez dias, depois do astrónomo Aloysius Lilius o ter corrigido.
Esta determinação foi seguida apenas pelas Igrejas do chamado rito latino, como a católica, enquanto as ortodoxas continuaram com o antigo calendário. Por esta razão, Portugal que adoptou a medida de imediato - tal como Itália, Espanha e Polónia - não tem na sua história registados os dias que vão de 5 e 14 de Outubro de 1582, saltados com o acerto da reforma gregoriana.
Apesar de tudo, este ano, católicos, ortodoxos e judeus celebram a Páscoa com os calendários sintonizados. «Trata-se apenas de uma pura coincidência», garantiu o professor David Sampaio Barbosa.

fonte: Portugal Diário