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Pela primeira vez, os Metallica falam sobre os vícios que quase lhes destruíram a carreira. O ódio entre James Hetfield e Lars Ulrich, o acidente que vitimou Cliff Burton, as groupies que os ensaboavam no final dos concertos e até a violação da cadela de Kirk Hammett. Uma longa história de Sexo, Drogas & Heavy-Metal contada na primeira pessoa.
Texto de Ben Mitchell
É Setembro de 1986 e os Metallica estão em grande: cinco anos de carreira e o segredo mais bem guardado do heavy-metal dirige-se para o sucesso mainstream. Com pouca fanfarra na imprensa e sem apoio das rádios e TVs, o seu terceiro álbum, Master of Puppets, caminha para o milhão de discos vendidos.
Mas, pouco antes das sete da manhã de 27 de Setembro de 1986, a tragédia atinge-os – ao passarem por Ljungby, na Suécia, a caminho de um concerto em Copenhaga, o seu autocarro sai da estrada e tomba. O guitarrista Kirk Hammett é acordado pelo ruído aterrador do metal queixoso, antes de ser projectado do beliche e perder momentaneamente a consciência.“A música era o combustível. O álcool vinha em segundo e as miúdas em terceiro. O álcool era definitivamente mais importante que as miúdas”, afirma Lars Ulrich. O amor pela bebida levou-os a apelidarem-se Alcoholica.
A custo, coloca as lentes de contacto e rasteja para fora do autocarro pela escotilha de emergência. A primeira coisa que vê são as pernas do baixista Cliff Burton, a surgirem debaixo dos destroços. Burton, que conquistou o direito a dormir naquela cama num jogo de cartas, está morto.
À medida que os serviços de emergência chegam para içar o autocarro de cima do corpo de Burton com uma grua, cada membro dos Metallica lida com o acidente de forma diferente. O líder James Hetfield, que escapara pontapeando o vidro de trás, percorre a estrada lavado em lágrimas, procurando gelo negro – a causa aparente do acidente –, que nunca encontra. A reacção de pânico do baterista Lars Ulrich é fugir do local, com medo que o veículo expluda. Hammett pede um cobertor ao condutor, que se baixa para pegar no que está colocado sobre Burton. «Foda-se, esse não», diz.Ulrich e Hetfield conheceram-se em 1981 quando o baterista colocou um anúncio de “músicos precisam-se”, num jornal local. “Ele não sabia tocar”, diz Hetfield. “Ele tinha um dom, mas era tímido”, diz Ulrich. “Compensava a minha falta de talento”.
Foi uma tragédia que teria feito com que a maioria das bandas parasse para se reagrupar e pensar no futuro. Mas, um mês depois, os Metallica contrataram um novo baixista, Jason Newsted. Dez dias depois estavam a dar concertos outra vez. Quando perguntamos se colocaram a hipótese de não continuarem sem Burton, a resposta do habitualmente tagarela Ulrich é curta e grossa: «não».
Esta combinação de determinação teimosa e indestrutibilidade virtual não só manteve os Metallica juntos durante 26 anos, como também os elevou às fileiras das maiores bandas rock do mundo. Para uma geração de fãs que cresceu nos anos 80 e 90, o quarteto definiu uma era, da mesma forma que os Led Zeppelin haviam feito nos anos 70. Os seus dez álbuns venderam um total de 95 milhões de cópias no mundo inteiro – mais do que os Red Hot Chili Peppers, Nirvana e The Police. Houve maratonas de digressões de estádios em que, a determinada altura, ganhavam um milhão de dólares por concerto, ao que se juntavam os jactos privados e colecções de arte dispendiosas.“O Lars era provavelmente o rei, no que diz respeito à promiscuidade. Broches debaixo do palco durante o solo de baixo, esse tipo de cenas”. Jason Newsted
Houve também barris de álcool, toxicodependência, esgotamentos, reabilitação e – no caso infeliz de Cliff Burton – morte. É seguro dizer que os Metallica não brincam em serviço.
Porcos, carecas e restaurantes porto-riquenhos
Para um empreendimento tão gigantesco, a base de operações dos Metallica – conhecida por todos simplesmente como «HQ» – é surpreendentemente modesta.
Situada numa tranquila estrada suburbana em San Rafael, na Califórnia, a 20 minutos a Norte da Golden Gate, o edifício cinzento de dois andares é o centro de um negócio multimilionário. A banda está aqui a ensaiar material para o seu próximo álbum, previsto para 2008. Quinzenalmente, viajam para Los Angeles, onde trabalham nas novas canções com o produtor Rick Rubin. O interior do HQ é imediatamente reconhecível para qualquer pessoa que tenha visto Some Kind of Monster, o documentário de 2004 que expôs as fragilidades, firmeza e riqueza imensa dos Metallica, enquanto lutavam para se salvarem da auto-aniquilação. A longa mesa de madeira, na cozinha espaçosa, é onde muitos dos problemas interpessoais da banda são discutidos com Phil Towle, o terapeuta e «treinador de performance» que lhes custa 40 mil dólares por mês (cerca de 34 mil euros).
Nesta manhã sombria de Maio, Robert Trujillo faz um batido de manga e banana.Na digressão de Load, Hammett exagerou em mais do que o eye-liner : o vício da cocaína começou a ameaçar a sua saúde física e mental. “Estava a ficar verde”, diz. “E via coisas que não estavam lá, como insectos na parede”.
O baixista de 42 anos – que substituiu Newsted em 2003, recebendo um cheque inicial de um milhão de dólares – parece um surfista formidável mas calmo. Em grande parte porque é. Trujillo e Hammett, com 44 anos, discutem o estado do mar. Sob estas luzes fortes, o couro cabeludo do guitarrista é visível e ele admite fazer tratamento para a queda do cabelo há 17 anos. «Se não o fizesse, parecia o Michael Stipe», diz.
O núcleo de Some Kind of Monster – e de toda a carreira dos Metallica – é a fricção entre Hetfield e Ulrich. No início do filme, os dois homens são tão bélicos e opostos que a situação parece não ter solução. Hetfield é o «frontman» taciturno. Adquiriu o gosto pelo ar livre nas idas à pesca com o pai, quando era criança, e agora pratica caça grossa nos tempos livres. Ulrich é o desbocado urbano, a beber cocktails enquanto parte da sua colecção de arte é leiloada por 13,4 milhões de dólares (mais de dez milhões de euros).BLITZ 16
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As coisas não melhoram quando Hetfield entra em reabilitação e desaparece durante quase um ano. Pago pela banda, com o controle editorial entregue aos cineastas Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, o filme parece um acto de loucura total – até nos lembrarmos que isto são os Metallica. O grupo fez sempre as coisas à sua maneira. Ou não as fez de todo.
James Hetfield e Lars Ulrich contaram a história dos seus primeiros tempos juntos tantas vezes que Ulrich destilou as suas diferenças em 12 palavras: «ele era o gajo tímido, eu era o que não se lavava». Hoje, com uma t-shirt branca, jeans escuras e ténis pretos da Converse, Hetfield tem o ar de quem devia estar a carregar uma caixa de ferramentas. Tal como Ulrich, tem 43 anos, e a barba vai ficando grisalha. Entrevistado no seu escritório no andar de cima, uma sala predominentemente decorada com peças de automóvel modificadas, fala de forma arrastada e baixa, com a franqueza que seria de esperar de alguém que passou os últimos seis anos a discutir os seus sentimentos em terapia de grupo, procurando combater o alcoolismo. Informalmente, é mais reservado. A conversa não é estranha, mas é preciso cativá-lo primeiro.